Um produtor na Hollywood dos anos 40 era o mais poderoso homem na indústria, capaz de destronar e erigir estrelas. Nos nossos dias a palavra dos estúdios é meramente monetária, mas na idade de ouro do studio-system, eram eles que ditavam e manipulavam a criatividade de cada projecto. São inumeráveis as histórias de tirania e desumanização mas ainda mais as obras-primas que delas resultaram.
Vincente Minnelli ilumina toda esta época de Hollywood com uma história de um produtor ambicioso capaz de tudo para atingir as suas metas. No entanto o protagonista nunca surge em acção presente durante todo o filme, mas em flashbacks divididos em três capítulos, avançados por diferentes narradores – um realizador, uma actriz e um argumentista - que viram a sua vida pessoal arruinada e a profissional celebrada graças aos esforços maquiavélicos do homem que agora juram não mais auxiliar em qualquer projecto. Mas ele é omnipresente, como um fantasma de logros passados que, apesar de todas as derrotas que sofreu, continua a edificar a sua consumidora sombra sobre todos eles.
Num magnífico e mordaz olhar sobre a Hollywood de outrora, Minnelli capta cada êxito e cada traição com a precisão e delicadeza de um dos seus mestres e mais profundos estudiosos. Vidas eram feitas e desfeitas em nome do Cinema e a absolvição era vivamente descartada. Não havia asilo para sentimentos nos bastidores, somente à frente das câmaras, onde podiam ser exacerbados e contemplados pelas multidões que urgiam um escape à monotonia. A única coisa que florescia em toda a sua plenitude era o agridoce sabor do sucesso. Contudo, como enuncia Kirk Douglas enquanto Jonathan Shields, o némesis intangível: ‘Don't worry. Some of the best movies are made by people working together who hate each other's guts’.
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A fraca afluência ao concerto de um dos maiores nomes da pop das últimas décadas pode ter várias explicações. O elevado preço dos bilhetes tendo em conta a situação actual, uma data em off-season, o facto de não ter um novo álbum a promover. A realidade é que o espectáculo de Kylie Minogue, uma adaptação mais reduzida da megalómana KylieX2008, não parecia destinado a ficar na memória entre os melhores dados na maior das salas lisboetas. Contudo o público, reduzido a metade, não fez rogada a sua reputação e instantaneamente acolheu a diminuta e cintilante estrela australiana que por sua vez se entregou inteiramente à multidão.
WOW Kylie Minogue
O alinhamento começou com 'Speakerphone', uma das mais brilhantes produções do electrónico e subvalorizado X, e teve por base a já mencionada KylieX2008 Tour, com a excepção de um segmento e uma adição, 'Boombox', do homónimo álbum de remixes lançado este ano. Foi este tema, conjugado com 'Can’t Get You Out of My Head,' o colosso de 2001, que proporcionou a primeira grande ovação da noite, com a cantora alegremente a desistir de cantar os primeiros versos tal era ensurdecedor o acompanhamento coral e pouco depois a confessar que ‘estão a fazer o meu coração derreter’. A partir daquele momento Kylie deteve toda a dedicação do público e vice-versa.
2 Hearts Kylie Minogue
Porque se é um facto que a produção, cuidada mas minimalista, não fez de frente à que a artista exibiu o ano passado, também é verdade que a isenção de grande teatralidade programática e compreensivelmente artificial deu oportunidade a um contacto mais imediato e directo com o público, fluindo o concerto de forma muito mais natural com a integração imediata dos presentes no mesmo, com Kylie a dirigir-se várias vezes à multidão como se de uma festa íntima se tratasse. A anfitriã, que há 2 anos batalhou contra um complicado cancro da mama, parece não se ter deixado acalmar pelas adversidades vividas e coriscava de forma ainda mais resplandecente e rendida que nunca, indesculpavelmente sensual em cada movimento dado, doce e inconfundível em cada palavra vocalizada.
Your Disco Needs You Kylie Minogue
É fácil nos esquecermos do espólio de deliciosas canções pop da artista mas na estreia auspiciosa no nosso país fez questão de exibi-las com uma roupagem mais moderna e próxima do electropop mais negro e dançante do seu último projecto, que atingiu o pico com ‘Wow’ e ‘In My Arms’. Até os seus hits mais recentes, como ‘Kids’, ‘Slow’, e ‘In Your Eyes’, encontravam-se radicalmente metamorfoseados, enquanto que os inocentes êxitos da menina jovial dos idos anos 80 estavam praticamente irreconhecíveis, à excepção do encore derradeiro, ‘I Should be So Lucky’, que fez implodir o Pavilhão Atlântico numa onda celebratória depois da euforia contagiante de ‘Love At First Sight’, música que poderia ter sido especialmente escrita para adjectivar aquela noite inesquecível e irrepetível.
Penélope Cruz parece não conseguir falhar nos últimos tempos. Aqui constrói uma personagem interessante, sedutora e desarmante. A beleza exposta ao serviço da intenção de delinear os contornos da paixão e da dor. Infelizmente é o único elemento capaz em Elegy, o filme da realizadora Isabel Coixet. A (tenebrosa) narração na primeira pessoa cabe ao protagonista interpretado por Ben Kingsley, um professor e escritor que nunca ultrapassou a adolescência emocional. Personagem isenta de qualquer tipo de profundidade para além da elevada por um estatuto de intelectualismo de pacote. E todo o argumento é inundado por um academismo ridiculamente disfarçado de pretensão e ‘arte’. A realização, académica e constrangedoramente básica, é no entanto a sua falha mais gritante, não sabendo ter em conta as personagens e os excelentes actores – tirando Dennis Hopper que detém a personagem mais abjecta de que há memória nos últimos anos - que tem em mão, como Patricia Clarkson e Peter Sarsgaard totalmente subaproveitados, e proporcionar uma encenação completamente desprovida de conteúdo. No final tornam-se vexantes os recursos narrativos a que recorre para impedir o afundamento nesta inocuidade. Desastroso.
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Kylie Minogue, que detém há alguns anos o cognome de Princesa da Pop, estreia-se em Portugal este sábado, dia 4 de Julho. Durante a sua carreira passou de menina bem comportada dos hits ‘I Should Be So Lucky’ e ‘Better the Devil You Know’ a ícone sexual do pop e entidade reinante do electropop e da música de dança mais pura com Fever e X, o seu último álbum, gravado depois da convalescença de um cancro da mama. É nesta última encarnação que se apresenta em Portugal num concerto que promete estar repleto de adrenalina e transformar o Pavilhão Atlântico numa microrave.Mas tende-se a esquecer uma das suas fases mais interessantes e criativas, depois da rotura com a discográfica antiga e a assinatura na Deconstruction, da qual só saiu um par de singles mais notórios, ‘Confide in Me’ e ‘Do it Again’, este último do seu melhor álbum, Impossible Princess, num registo mais alternativo ao que estava acostumada, contando com participações de membros dos Manic Street Preachers. Tudo começa no entanto com a célebre colaboração com Nick Cave e a melancólica, soturna e assassina ‘Where the Wild Roses Grow’. Aqui pode-se ver umas das raras, e brilhantes, actuações ao vivo e em conjunto no saudoso programa da MTV, Most Wanted do VJ Ray Cokes, numa era em que o canal ainda perdia tempo a divulgar música:
Where the Wild Roses Grow Nick Cave & The Bad Seeds (featuring Kylie Minogue)
E uma das belas músicas de Impossible Princess, a refrescante 'Some Kind of Bliss', gravada num concerto da tourné respectiva, Intimate & Live:
Some Kind of Bliss Kylie Minogue
"Oh I don't mind you being older than what I thought. But all the rest of it. That pitch about your ideals being so old-fashioned and all the malarkey that you've been dishin' out all summer. Oh, I knew you weren't sixteen anymore. But I was fool enough to believe you was straight"
Karl Malden 1912-2009


Muito antes da trilogia de filmes encabeçada por Anthony Hopkins e o seu Oscarizado Hannibal Lecter, surge a primeira adaptação de um desses romances de Thomas Harris na mão de um então ainda quase desconhecido Michael Mann. É no entanto surpreendente a abordagem do realizador neste Manhunter, ainda no início da sua carreira em cinema, já extremamente precisa e acutilante no trabalho de câmara e no enquadramento metódico do plano, distinguindo-se em técnica e especialmente em tom da grande parte dos thrillers que marcaram os anos 80. Aqui explora-se a mesma linha narrativa que em Red Dragon de Brett Ratner, abordando a intervenção de Will Graham, um policia ‘reformado’ depois de ter aprisionado Hannibal Lektor (e não Lecter) – aqui protagonizado por Brian Cox, num novo caso de um serial killer. Ao contrário do filme de Ratner existe aqui uma coesão que conduz todo o filme e permite criar belos momentos de tensão psicológica de forma bastante directa e cirúrgica, auxiliados por um brilhante trabalho fotográfico de Dante Spinotti. William Pedersen é sempre capaz na sua interpretação mas talvez tivesse servido melhor ao realizador alguém menos monocórdio na expressão emocional. Por outro lado temos um assassino extremamente bem delineado por Tom Noonan e uma pequena participação da talentosa Joan Allen. É indubitavelmente um filme a descobrir como algo bem mais valoroso que uma curiosidade marginal da saga de Hopkins e superior a dois terços da mesma.
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Voltaic, o arquivo de um período que englobou uma tourné de quase dois anos, encontrou uma série de peripécias no seu lançamento, sofrendo uma série de atrasos consecutivos, mas estão finalmente disponíveis todas as edições deste resumo da era Volta de Björk. E para quem acompanha atentamente cada passo da artista nos últimos 15 anos, é definitivamente um pequeno tesouro. O próprio packaging da edição Deluxe é uma preciosidade de design, englobando nela um DVD com dois concertos – em Paris e Reykjavík – um CD com versões em estúdio de músicas apresentadas ao vivo, um DVD com os todos os vídeos de Volta e um CD com uma selecção dos melhores mixes dos singles.
O concerto em Paris tem um minúsculo senão, mostrando Björk num período de convalescença de uma laringite que a obrigou a adoptar um registo vocal mais grave (se bem que não menos impressionante), algo que já não se verificava mais tarde quando se apresentou finalmente em Portugal. Talvez devesse também ter sido filmado, com as desvantagens que isso traz, num espaço ao ar livre já que a Volta Tour para eles foi concebida. É no entanto um sublime arquivo da energia incomparável que esta digressão nela invocou e em todos os seus companheiros de palco, que incluía o guru Mark Bell, um conjunto islandês (e feminino) de metais, Chris Corsano e Jonas Sen. É difícil esquecer o conjunto Hyperballad/Pluto e depois Declare Independence como um dos mais efusivos momentos alguma vez experienciados ao vivo. Todo o trabalho de renovação dos temas que foram-se tornando tão familiares e confortantes é impressionante e assim, juntamente com a vertente mais calma do concerto islandês e das versões mais puras gravadas em estúdio, fica imortalizado numa edição derradeira que captura toda a adrenalina e celebração pagã que definiu uma era. Volta chega assim ao fim. Oficialmente. O que virá a seguir?
O concerto em Paris tem um minúsculo senão, mostrando Björk num período de convalescença de uma laringite que a obrigou a adoptar um registo vocal mais grave (se bem que não menos impressionante), algo que já não se verificava mais tarde quando se apresentou finalmente em Portugal. Talvez devesse também ter sido filmado, com as desvantagens que isso traz, num espaço ao ar livre já que a Volta Tour para eles foi concebida. É no entanto um sublime arquivo da energia incomparável que esta digressão nela invocou e em todos os seus companheiros de palco, que incluía o guru Mark Bell, um conjunto islandês (e feminino) de metais, Chris Corsano e Jonas Sen. É difícil esquecer o conjunto Hyperballad/Pluto e depois Declare Independence como um dos mais efusivos momentos alguma vez experienciados ao vivo. Todo o trabalho de renovação dos temas que foram-se tornando tão familiares e confortantes é impressionante e assim, juntamente com a vertente mais calma do concerto islandês e das versões mais puras gravadas em estúdio, fica imortalizado numa edição derradeira que captura toda a adrenalina e celebração pagã que definiu uma era. Volta chega assim ao fim. Oficialmente. O que virá a seguir?
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Não deve haver artista mais difícil de categorizar que Björk Guðmundsdóttir. Desde que enveredou por uma prolífica carreira a solo em 1993, depois do rompimento com os Sugarcubes, que tem trilhado um caminho sempre marcado pelo inesperado. Depois de um início estrondoso a conquistar os corações indie e o mercado mainstream, desde cedo deu para compreender que o propósito maior desta força da natureza proveniente das paisagens escarpadas da Islândia nunca se revelaria o mais acessível. Depois da sublimação pop de Debut e Post, algo mais começou a emergir. Inicialmente com a exacerbação apaixonada de Homogenic passou para o completo oposto com a quietude sublimada de Vespertine, apenas para voltar a chocar – talvez mais que nunca – com a rispidez visceral e carnal de Medúlla. No seu último passo em direcção a uma imortalidade já conquistada, apresentou-se com Volta, um distinto chamamento peregrino do centro da própria Terra.
Os espectáculos de Björk sempre foram visualmente e conceptualmente arriscados. Quando passou em 1996 pelo Coliseu dos Recreios a sonoridade industrial, suja e agressiva, nunca deixaria adivinhar que enveredaria mais tarde numa tourné pelas casas de ópera do mundo, como se de uma compositora de chamber music se tratasse e que, logo a seguir, reunisse ambos os mundos aquando da revisão de carreira, que os Portugueses tiveram a oportunidade e a satisfação de presenciar no Meco há cinco anos. Mas nada parece fazer mais sentido do que o conceito de Volta quando é concretizado ao vivo. É aparentemente o mais simples trabalho de Björk desde Debut, mostrando uma artista, que na sua presente maturidade, não desiste de descortinar mais uma das suas inúmeras e quase esquizofrénicas facetas. Como um mensageiro dos deuses antigos, Björk entrou no palco do Sudoeste a revelar à partida, e com Earth Intruders, o imenso espectáculo de cor, luz e emoções totalmente inadulteradas que se iria vivenciar. Não há aqui espaço para a racionalização, tudo é radicalmente instintivo.
Mesmo antes de entrar em palco, o decateto de metais no feminino – as Wonderbrass, todas elas islandesas – avançava para os seus lugares enquanto fazia ecoar pelo recinto uma marcha sem nação e a preconizar os inúmeros rituais heréticos que iriam ter lugar na Zambujeira do Mar. Trajadas com cores garridas, bandeiras acopladas e pinturas bélicas eram como múltiplas vozes que se reuniam numa só: na de Björk, vestida como uma princesa amazona dos tempos modernos, com todas as cores do arco-íris a flutuarem da sua saia e com um bizarro adereço que lhe cobria a cabeça. A sacerdotisa impunha assim a sua presença e convocava para si as hostes, que poderiam entrar cépticos mas sairiam certamente crentes. Esta comunhão existe num espaço muito para além do religioso e o alinhamento que escolheu para esta noite foi perfeito e mais que adequado à missa degenerada que foi o seu concerto. Em Hunter mostrava-se ainda a apalpar terreno, enquanto as batidas predatórias embrenhavam-se nas almas mais desprevenidas e ela mesma deixava rolar das suas mãos uma densa chuva de fitas. Com a dorida Pagan Poetry sentia-se já a aproximação de uma rendição, que se mostrou completa quando certamente fazia cair as primeiras lágrimas de absolvição com a dilacerante All is Full of Love. Assim se sentiu o aterrar da entidade que se tinha conjurado.
Depois disto soltou-se mais do que é habitual, mostrando-se receptiva à calorosa e desembrenhada recepção que o público lhe oferecia. Era afinal de contas o penúltimo espectáculo de um itinerário que começou em Abril de 2007. A quase infindável tour reforça aquilo que se vislumbra em palco, uma tribo nómada sem destino estabelecido, que deixa um bocado de si em todos os sítios que visita e celebra. A acompanhar Björk estão também Mark Bell, companheiro de longa data e co-produtor de alguns dos seus melhores temas, nas misturas, Damian Taylor, nos efeitos sonoros e condutor da maravilhosa engenhoca Reactable, o amigo Jónas Sen nas variadas teclas e o aclamado Chris Corsano na bateria.
Após a entoação da belíssima Pleasure is All Mine, que tal como quase todas as mais anciãs canções teve direito a novas roupagens, ajustadas aos emblemas do espectáculo, chega um dos mais sublimes momentos que o Sudoeste teve oportunidade de presenciar. Björk ausenta-se para as Wonderbrass tomarem o centro do palco e arrebatarem uma multidão silenciosa com Overture, numa comovente alusão a Dancer in the Dark. Logo a seguir retorna para junto delas para apresentarem uma despida e hipnotizante versão de Immature, com a indomável voz de Björk, simultaneamente frágil e irredutível, a provocar reacções imediatas a cada nova vocalização. Podem-se contar pelos dedos os intérpretes que conseguem impregnar cada nota de uma panóplia infindável de sentimentos e ela faz certamente parte desse restrito grupo.
Enquanto esperava pela chegada de um convidado muito especial, depois de I Miss You e Who Is It, entretinha-se divertidamente a interrogar o público no meio de inúmeros e floreados “Oprrrrigados”. Esse convidado era Toumani Diabaté que intitulou de rei da kora, instrumento de múltiplas cordas, proveniente do Mali que com ela protagonizou um dos mais belos momentos da noite com Hope, uma acutilante balada primitiva, que com o virtuosismo de Toumani e os rasgados sorrisos de Björk, todos conquistou.
Estes momentos mais íntimos, partilhados com cerca de vinte mil pessoas, como o religioso Vökuro, a paisagística Wanderlust, e o emotivo retorno a casa de Anchor Song já no encore, eram intercalados com as mais puras descargas de energia. Começou com Army Of Me, esse hino de guerra que parece estar mais forte e ressonante que nunca, e que fez pela primeira vez o mar de gente tornar-se alucinantemente revolto. Mas ainda assim nada poderia augurar o que viria a acontecer no final. A romanticamente suicida Hyperballad começa com a doçura de sempre, com Björk inclusivamente a deixar o público cantar parte da música, mas o crescendo habitual é violentamente paralisado pelo perturbador irromper de um perverso beat de Mark Bell. Aqui todo o espaço circundante pareceu dissolver-se repentinamente para dar origem a uma rave espacial capaz de aniquilar galáxias inteiras. Algo que continuou a elevar-se com a chegada de (a) Pluto, com as suas batidas apocalípticas carregadas de desgarrada energia bélica. A acompanhar um poderoso ”headbanging” colectivo, Björk juntava-se ás suas Wonderbrass numa coreografia ritualista.
Mas a fatal exaustão só se poderia fazer sentir depois da última música do encore, Declare Independence, um dos temas maiores de Volta. As anteriores dedicações ao Kosovo e ao Tibete causaram controvérsia na China e impediram-na de se deslocar à Sérvia. Mas em palco o mito é outro e tremendamente pessoal. Num palco recheado de bandeiras sem nacionalidade nem associação, Björk, numa atitude neo-punk totalmente combativa, exigia que se erguessem as bandeiras mais alto. As bandeiras de um individualismo conquistado, sinais da emancipação que tinha acontecido. E numa celebração inominável a explosão derradeira deu-se com toda a pompa imaginável. Os saltos eram cada vez mais altos, os confettis celebrativos inundavam a multidão enquanto esta gritava com toda a sua alma, respondendo ferozmente aos rituais pagãos convocados. Depois desta experiência extracorporal assombra-nos a percepção que não existiam deuses extraterrenos presentes nesta cerimónia. A única coisa que Björk fez venerar foi a identidade de cada um. Independência declarada... eterna e inabalável.
Os espectáculos de Björk sempre foram visualmente e conceptualmente arriscados. Quando passou em 1996 pelo Coliseu dos Recreios a sonoridade industrial, suja e agressiva, nunca deixaria adivinhar que enveredaria mais tarde numa tourné pelas casas de ópera do mundo, como se de uma compositora de chamber music se tratasse e que, logo a seguir, reunisse ambos os mundos aquando da revisão de carreira, que os Portugueses tiveram a oportunidade e a satisfação de presenciar no Meco há cinco anos. Mas nada parece fazer mais sentido do que o conceito de Volta quando é concretizado ao vivo. É aparentemente o mais simples trabalho de Björk desde Debut, mostrando uma artista, que na sua presente maturidade, não desiste de descortinar mais uma das suas inúmeras e quase esquizofrénicas facetas. Como um mensageiro dos deuses antigos, Björk entrou no palco do Sudoeste a revelar à partida, e com Earth Intruders, o imenso espectáculo de cor, luz e emoções totalmente inadulteradas que se iria vivenciar. Não há aqui espaço para a racionalização, tudo é radicalmente instintivo.
Mesmo antes de entrar em palco, o decateto de metais no feminino – as Wonderbrass, todas elas islandesas – avançava para os seus lugares enquanto fazia ecoar pelo recinto uma marcha sem nação e a preconizar os inúmeros rituais heréticos que iriam ter lugar na Zambujeira do Mar. Trajadas com cores garridas, bandeiras acopladas e pinturas bélicas eram como múltiplas vozes que se reuniam numa só: na de Björk, vestida como uma princesa amazona dos tempos modernos, com todas as cores do arco-íris a flutuarem da sua saia e com um bizarro adereço que lhe cobria a cabeça. A sacerdotisa impunha assim a sua presença e convocava para si as hostes, que poderiam entrar cépticos mas sairiam certamente crentes. Esta comunhão existe num espaço muito para além do religioso e o alinhamento que escolheu para esta noite foi perfeito e mais que adequado à missa degenerada que foi o seu concerto. Em Hunter mostrava-se ainda a apalpar terreno, enquanto as batidas predatórias embrenhavam-se nas almas mais desprevenidas e ela mesma deixava rolar das suas mãos uma densa chuva de fitas. Com a dorida Pagan Poetry sentia-se já a aproximação de uma rendição, que se mostrou completa quando certamente fazia cair as primeiras lágrimas de absolvição com a dilacerante All is Full of Love. Assim se sentiu o aterrar da entidade que se tinha conjurado.
Depois disto soltou-se mais do que é habitual, mostrando-se receptiva à calorosa e desembrenhada recepção que o público lhe oferecia. Era afinal de contas o penúltimo espectáculo de um itinerário que começou em Abril de 2007. A quase infindável tour reforça aquilo que se vislumbra em palco, uma tribo nómada sem destino estabelecido, que deixa um bocado de si em todos os sítios que visita e celebra. A acompanhar Björk estão também Mark Bell, companheiro de longa data e co-produtor de alguns dos seus melhores temas, nas misturas, Damian Taylor, nos efeitos sonoros e condutor da maravilhosa engenhoca Reactable, o amigo Jónas Sen nas variadas teclas e o aclamado Chris Corsano na bateria.
Após a entoação da belíssima Pleasure is All Mine, que tal como quase todas as mais anciãs canções teve direito a novas roupagens, ajustadas aos emblemas do espectáculo, chega um dos mais sublimes momentos que o Sudoeste teve oportunidade de presenciar. Björk ausenta-se para as Wonderbrass tomarem o centro do palco e arrebatarem uma multidão silenciosa com Overture, numa comovente alusão a Dancer in the Dark. Logo a seguir retorna para junto delas para apresentarem uma despida e hipnotizante versão de Immature, com a indomável voz de Björk, simultaneamente frágil e irredutível, a provocar reacções imediatas a cada nova vocalização. Podem-se contar pelos dedos os intérpretes que conseguem impregnar cada nota de uma panóplia infindável de sentimentos e ela faz certamente parte desse restrito grupo.
Enquanto esperava pela chegada de um convidado muito especial, depois de I Miss You e Who Is It, entretinha-se divertidamente a interrogar o público no meio de inúmeros e floreados “Oprrrrigados”. Esse convidado era Toumani Diabaté que intitulou de rei da kora, instrumento de múltiplas cordas, proveniente do Mali que com ela protagonizou um dos mais belos momentos da noite com Hope, uma acutilante balada primitiva, que com o virtuosismo de Toumani e os rasgados sorrisos de Björk, todos conquistou.
Estes momentos mais íntimos, partilhados com cerca de vinte mil pessoas, como o religioso Vökuro, a paisagística Wanderlust, e o emotivo retorno a casa de Anchor Song já no encore, eram intercalados com as mais puras descargas de energia. Começou com Army Of Me, esse hino de guerra que parece estar mais forte e ressonante que nunca, e que fez pela primeira vez o mar de gente tornar-se alucinantemente revolto. Mas ainda assim nada poderia augurar o que viria a acontecer no final. A romanticamente suicida Hyperballad começa com a doçura de sempre, com Björk inclusivamente a deixar o público cantar parte da música, mas o crescendo habitual é violentamente paralisado pelo perturbador irromper de um perverso beat de Mark Bell. Aqui todo o espaço circundante pareceu dissolver-se repentinamente para dar origem a uma rave espacial capaz de aniquilar galáxias inteiras. Algo que continuou a elevar-se com a chegada de (a) Pluto, com as suas batidas apocalípticas carregadas de desgarrada energia bélica. A acompanhar um poderoso ”headbanging” colectivo, Björk juntava-se ás suas Wonderbrass numa coreografia ritualista.
Mas a fatal exaustão só se poderia fazer sentir depois da última música do encore, Declare Independence, um dos temas maiores de Volta. As anteriores dedicações ao Kosovo e ao Tibete causaram controvérsia na China e impediram-na de se deslocar à Sérvia. Mas em palco o mito é outro e tremendamente pessoal. Num palco recheado de bandeiras sem nacionalidade nem associação, Björk, numa atitude neo-punk totalmente combativa, exigia que se erguessem as bandeiras mais alto. As bandeiras de um individualismo conquistado, sinais da emancipação que tinha acontecido. E numa celebração inominável a explosão derradeira deu-se com toda a pompa imaginável. Os saltos eram cada vez mais altos, os confettis celebrativos inundavam a multidão enquanto esta gritava com toda a sua alma, respondendo ferozmente aos rituais pagãos convocados. Depois desta experiência extracorporal assombra-nos a percepção que não existiam deuses extraterrenos presentes nesta cerimónia. A única coisa que Björk fez venerar foi a identidade de cada um. Independência declarada... eterna e inabalável.
Ricky Gervais estreia-se na realização. Assina o argumento. Protagoniza juntamente com a deslumbrante Jennifer Garner num elenco que também incluí Jonah Hill, Rob Lowe, Christopher Guest e... Tina Fey!
O trailer perde-se um pouco na tentativa de explicação simplista do conceito: Um mundo onde toda a gente diz a verdade... até alguém inventar a primeira mentira. Definitivamente ambicioso. Genial? Quase de certeza.

O trailer perde-se um pouco na tentativa de explicação simplista do conceito: Um mundo onde toda a gente diz a verdade... até alguém inventar a primeira mentira. Definitivamente ambicioso. Genial? Quase de certeza.

Inevitável:












