Amanhã, dia 10 de Novembro, é dia de extraordinário rejúbilo para o mundo cinéfilo português: no European Film Festival do Estoril, onde tem vindo a ser homenageado com a passagem integral da sua obra e uma exposição denominada Chromossomes, David Cronenberg irá dirigir-se aos seus admiradores aquando da apresentação de uma curta-metragem, The Italian Machine de 1976, e de Crash de 1995, um dos símbolos máximos da arte de violação do cineasta, que tal como a curta são consequências claras do seu fetiche ‘mecânico-sexual’. Trinta anos (!) depois de The Brood, é notável a forma como Cronenberg deixou uma indelével marca na 7ªarte com a sua violenta desconstrução do ser humano, unindo instinto e visceralidade numa desarmante e por vezes doentia amálgama cinematográfica de carne, ossos e sangue. Esta sua filosofia singular desperta um culto muito próprio e originou já um legado que nunca deixará de ser chocante e renovador. Aqui ficam os meus filmes favoritos do eterno transgressor, David Cronenberg:
Divertido, despretensioso e com muito coração, The Brothers Bloom é uma agradável surpresa. Apesar de não ter um terceiro acto ao nível dos dois primeiros, as personagens são tão magnéticas que colmatam as falhas que se acumulam. Especialmente as interpretadas pelo excelente Adrien Brody e a cada vez mais encantadora e infalível Rachel Weisz.
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Teve lugar ontem na Cinemateca Portuguesa a antestreia de Ne Change Rien com a presença do realizador do filme e da sua protagonista. Esta nova obra de Pedro Costa, que viu há pouco tempo o seu primeiro filme revisitado em cinema e DVD, é um documentário que acompanha a actriz Jeanne Balilbar na gravação do seu segundo álbum. Mas o que poderia ser uma interessante desconstrução do processo da feitura de um trabalho musical é nada mais que uma inconsequente série de esboços de canções à medida que elas são trabalhadas e gravadas, sem nunca querer (ou conseguir) enquadrar estas experiências para além do entediante exercício sobre o vazio que promovem. É difícil pensar que Costa acredite que por uma mera composição de plano os espectros mais recônditos da alma de Balibar instantaneamente se revelem e queira assim citar Nicholas Ray. Já se viram behind-the-scenes, daqueles que agora aparecem em todos os lançamentos musicais num DVD à parte com a conotação de edição especial, com muito mais substância. Inerte, apático e até, no seu indefensável pretensiosismo, ultrajante.
Está disponível um novo trailer promocional para V, remake da série de ficção cientifica dos anos 80, e que começará a ser transmitida já na próxima terça-feira pelo canal norte-americano ABC. A abordagem é claramente diferente e parece ter a intenção de inserir os ditos 'Visitantes' na sociedade actual com algum realismo, para além da promessa de preencher o vazio deixado pelo término da excelente Battlestar Galactica. É protagonizada pela hipnotizante Elizabeth Michell, a Juliet de LOST, e aqui está músicada por 'Uprising', primeiro single dos Muse para o grandioso 'The Resistence'. Não poderia ser mais apropriado:

Uma das mais persistentes influências provem das Montanhas Apalaches, berço de um tipo muito específico de música com diversas proveniências e precursores, desde a música característica da Irlanda e Escócia trazida pelos emigrantes até aos próprios blues norte-americanos, passando também pelos hinos religiosos. Pouco depois da sua génese, ao qual se aponta a origem da blugrass e do country americanos, ganha particular significado quando é utilizada para expressar protestos dos trabalhadores da indústria mineira sob a forma de lúgubres canções interventivas que são recordadas ainda hoje.
A música Apalachiana ganhou notoriedade no inicio deste século com o surgimento de duas bandas sonoras produzidas pelo afamado T-Bone Burnett: O Brother Where Art Thou? e Cold Mountain, fazendo parte da renovação cíclica e sistemática da herança americana. Hoje temos vários exemplos de reputados artistas que continuam a honrar este legado, simplesmente fazendo recordar a memória das origens ou usando-as para criar algo novo e arrojado. Com banjo, mandolim e violino ou sem eles, a música contemplativa e sofrida das Apalaches está em todo o lado:

Steven Soderbergh entregou este ano dois dos mais estranhamente subvalorizados filmes com o bipartido Che. Não só a interpretação de Benicio del Toro é histórica como se vislumbrava um Soderbergh regenerado, com uma inspiração impressionante na realização e na própria encenação como já não se via nele talvez desde Traffic.
Por isso é com enorme surpresa que se recebe The Informant, uma sátira cujo humor recai sobre os percalços de um homem de estatuto e morais duvidosos envolvido num imbricado e criminoso escândalo de espionagem industrial. Surpresa devido à total inércia por parte de Soderbergh no seu papel de realizador, gerando uma obra totalmente amorfa, inócua e inexplicavelmente aborrecido.
À medida que vamos descobrindo novas facetas da personagem de Matt Damon, que notoriamente ganhou peso para este desempenho, mais nos apercebemos o quão truncada é a narrativa, não mais que uma série de reciclagens circulares da mesma fatigante premissa explorada em sequências que nada mais são que o reflexo desfocado e inconsequente da anterior. O mesmo acontece com o sentido de humor espelhado na narração presente de Damon, com o mesmo género de piadas derivativas consecutivamente a tentar descompor o tédio narrativo.
The Informant é um desastre que não gera colisões ensurdecedoras e que provavelmente não perdurará na memória mais que uns meros dias, mas é, indesculpavelmente, um desastre.
ACTUALIZAÇÃO:
Tentarei pelo menos actualizar as tabelas de dailies nos próximos tempos, mas as idas ao cinema têm também sido demasido esporádicas.
Por enquanto não percam de forma alguma o novo filme de Kathryn Bigelow.
Até já.

Foi há quase 15 anos que um filme de nome Toy Story transfigurou para sempre o panorama do cinema de animação digital e introduziu a Pixar como uma entidade a merecer todo o respeito e veneração de uns estúdios Ghibli e a própria Disney onde estava (e continua) incorporada. Hoje já se torna redundante vangloriar a excelência dramática e técnica empregue na construção destas histórias de ressonância inigualável no género e mesmo no cinema norte-americano em geral.
Up começa por nos apresentar Carl, um pequeno e silencioso rapaz com uma sede imensa de aventura. Esta começa quando conhece Ellie, uma rapariga com espírito ainda mais temerário. Assistimos ao florescer da relação entre ambos, as desilusões, as alegrias e acima de tudo o amor infindável que os une até para além da morte. Ellie perece antes de realizarem os seus juvenis sonhos conjuntos de morar no topo das Paradise Falls. Mas Carl tenciona fazer justiça à memória da sua amada esposa.
É difícil lembrar esta sequência inicial de Up e impedir que sejamos assolados com a mesma ternura e dolorosa nostalgia com que é vista pela primeira vez um dos mais comoventes e devastadores momentos dramáticos de toda a história da Pixar, pautados pelo cada vez mais brilhante Michael Giacchino e capaz de facilmente fazer frente à morte da mãe de Nemo e ao instante em que Wall-E se entrega a Eve. A ligação de Carl e Ellie mantém-se constante e inextinguível durante todo o filme, como uma aura incapaz de ser quebrada pelas inevitabilidades físicas que nos limitam a todos.
Outras aventuras surgem: o encontro com a paternidade tardia na forma de um pequeno e desengonçado escuteiro, a descoberta de amizades incomuns, a desilusão do encontro com um herói de infância que perdeu os seus valores, o alvorecer de novos horizontes. Em todos os momentos somos atingidos fulminantemente por algo que parece sempre incapaz de ser enclausurado abaixo dos limites do sonho e de uma desavergonhada humanidade. Enquanto não se tentar igualar esta simplicidade tão imediata de reconhecer sentimentos maiores que as constrições da vida terrena e tudo o resto continuar a permanecer na inutilidade de objectos tão fugazes quanto o próprio tempo, a Pixar continuará a reinar suprema; e, sozinha, a tornar tudo um pouco mais inocente e esperançoso. To infinity and beyond.













